37192 60617 19917 31894 08015 44919 96637 30279 32548 39508 09660 96232 29132 89438 47736 52408 75202 54104

sábado, 4 de dezembro de 2010

Jeep 3/4 Ton 6x6 Willys MT-TUG


TUG em inglês quer dizer rebocador. Essa foi a razão da Willys ter dado esse nome para um protótipo que ela desenvolveu a partir de um Jeep padrão.
Explicando melhor, o tal veículo tinha uma característica bem diferente do Jeep normal: ele tinha 6 rodas. Isso mesmo, 2 diferenciais traseiros como nos caminhões pesados da época. Isso dava uma capacidade de arrasto muito maior do que o normal e possibilitava uma gama de usos mais ampla do que a versão original.
A requisição para esse tipo de veículos veio da necessidade de um veículo de 3/4 de tonelada mais leve e ágil do que os carros Dodge da época. Como criatividade não era exatamente o tipo do material que estava em falta e nem sendo racionado pelo governo, algumas das soluções mais engenhosas da história do automóvel apareceram nessa época.
Ao todo foram quinze veículos fabricados em 1943 para o Exército Americano sob o contrato W-303-ORD-4623 e testados nas mais diferentes funções, desde simples transportes até blindados. Todos os testes foram conduzidos em Camp Gordon, Johnston, Florida, no Comando de Transporte do Exército.
O Jeep teve a carroceria alargada e bem encompridada para acomodar todas as modificações necessárias às suas novas funções.
O motor e o cambio permaneceram os mesmos, mas a caixa de redução teve a sua relação modificada para 2,27:1 e a dos diferenciais mudada para 5,38:1.
O primeiro protótipo tinha entre outras características o interessante acessório de uma quinta roda.  Não que ele tivesse uma roda a mais do que as seis, mas a quinta roda que os cavalos mecânicos possuem sobre o chassi para serem atrelados às carretas de carga. Possuía também um sistema de compressor para o acionamento do freio a ar do reboque. A alavanca de acionamento do freio do reboque era colocada ao lado direito do motorista, encostada ao compartimento do compressor que sobressaía por dentro da cabine.

Outra variação desse veículo foi numa versão ambulância com capacidade para 6 macas.
 
 

Outro veículo foi utilizado para montar um canhão de 37 m/m antitanque (T-14), na tentativa de substituir o equivalente da Dodge, que nada mais era do que uma pick-up WC-51 com um canhão montado na carroceria.
 
Todas essas tentativas acabaram se mostrando inúteis, pois nenhuma delas conseguia se diferenciar através de um desempenho tão melhor do que os veículos já existentes, que compensasse parar uma linha de produção para começar outra e arcar com todos os problemas logísticos que isso acarretaria.
Deixei para o fim um protótipo interessante, que foi a transformação de um chassi com canhão, para um veículo blindado de reconhecimento (T-24). Esse carro recebeu uma blindagem em toda a sua volta, o que fez com que ele parecesse um misto de tartaruga e locomotiva. 
 Novamente não teve sucesso devido ao excesso de peso aliado à pouca potência do motor,  mas o mais interessante de tudo é que justamente esse blindado e o protótipo numero 8 são dois dos possíveis quatro únicos sobreviventes dos quinze que foram construídos.
O blindado foi mostrado numa convenção de colecionadores de carros militares no Campo de Provas de Aberdeen, EUA, em maio de 1995 e pelo que deu para comparar com as fotos originais, ele foi muito bem conservado e restaurado (apesar de faltar o suporte de antena que estava originalmente no paralama dianteiro direito).
O protótipo numero 8 pertence a um rancheiro chamado Royce Anderson do Estado de Nevada e que o utiliza num parque de sua propriedade chamado "Ponderosa Ranch",  baseado no seriado de televisão dos anos 60, "Bonanza". 

Outro TUG, pertence a Fred Smith de Staffordshire (Inglaterra), participou em 2002, do maior evento mundial de viaturas militares, conhecido como “The War and Peace Show”, que se realiza anualmente em The Hop Farm, Paddock Wood, Kent, TN12 6PY na Inglaterra. (http://www.warandpeaceshow.co.uk/)

Lá fomos nós, outra vez, fazer um pouco de arqueologia na história do Jeep e desvendar mais algumas coisas sobre essa nossa querida paixão e eterna dor de cabeça. Até parece mulher....
Mantenham eles rodando.
           
            CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS PARCIAS:
           
- COMPRIMENTO:
4,28 mts
- LARGURA:
1,52 mts
- CAPACIDADE DE CARGA:
em torno de 750 Kg
- QUOCIENTE DE SUBIDA:
66%
- PESO:
dependendo da versão: a partir de 2.000 Kg
- MOTOR:
Padrão do Jeep
- CAMBIO:
Warner T-84 J (padrão)
- CAIXA DE REDUZIDA:
Modificada para 2,27:1
- DIFERENCIAIS:
(3) Modificados para 5,38:1

sábado, 6 de novembro de 2010

WILLYS MB-L

O veículo que apresentarei desta vez faz parte de uma série de protótipos que foram apresentados pela Willys-Overland e por outras empresas (o primeiro foi em 24 de fevereiro de 1943), quando estavam procurando um eventual substituto para o Jeep padrão nas operações aerotransportadas. Notem bem, o aerotransporte não significa lançar o veiculo de um avião, mas sim levá-lo de um lugar para o outro via aérea. Como já falei numa outra vez, o Jeep só conseguiu ser lançado de um avião na década de 50.
Vale um pequeno desvio para comentar que nessa época, os planejamentos da invasão da Normandia já estavam bem adiantados e a necessidade de materiais especiais e fáceis de transportar era enorme.
Sua história é quase a mesma de muitos outros protótipos que surgiram, foram testados e na maior parte das vezes rejeitados pelos mais variados motivos, desde complexidade de construção, de manutenção, de operação e em grande parte destas vezes, o interesse de algum conglomerado industrial poderoso em sabotar os eventuais contratos do Exército Americano com algum concorrente.
Este protótipo super leve foi encomendado visando a maior capacidade possível de carga com o menor peso estrutural possível.
Para começo de conversa, os engenheiros da Willys pegaram um Jeep padrão e anotaram tudo o que era em primeira instância desnecessário e simplesmente retiraram do veículo. Algumas destas coisas foram: A madeira que ficava por detrás do para choque dianteiro (sim, o Jeep tem um caibro de madeira por dentro do parachoque para fortalecer a estrutura dianteira), o parachoque dianteiro foi cortado na largura dos suportes, a placa de proteção inferior do câmbio foi retirada, a placa central para prender a torre de metralhadora também foi suprimida, o suporte de bateria, os reforços de chassi superior e inferior, a travessa sobre o diferencial traseiro, suportes dos amortecedores traseiros, o gancho de reboque traseiro foi substituído por uma peça de chapa estampada com um pino de segurança, os parachoques traseiros foram retirados e a travessa traseira foi cortada na largura do chassi. Já deu para notar que foi um festival de “corta daqui e dali” que quase fez o chassi desaparecer.
Bem, mas isso apenas no chassi faltava o resto: mecânica e lataria.
Na lataria a solução foi relativamente simples: descartaram a carroceria por completo. Fizeram um capô e paralamas menores, uma grade também reduzida, suprimiram toda a parte traseira da carroceria e instalaram uma espécie de caixa que seria usada como caçamba. Todas essas peças foram feitas em chapa de aço de espessura menor para ajudar na diminuição do peso.
Depois disso conseguiram reduzir ainda mais o peso com as seguintes modificações: capô, paralamas e parabrisa de estrutura tubular revestidos de lona.
Na parte mecânica e elétrica é que realmente eles arrepiaram. Suprimiram do motor as seguintes partes: gerador, motor de arranque (partida só na manivela), bobina, distribuidor, filtro de óleo com suporte e a proteção do carter. Vocês podem achar que o carro não iria funcionar sem o distribuidor, mas um magneto da marca Wico foi colocado em seu lugar. O tanque de gasolina foi reduzido e ganhou um medidor de leitura direta. O filtro de combustível também foi trocado por outro de menores dimensões. O silencioso foi colocado ao lado do motorista e a tubulação também reduzida.
As caixas de câmbio, de reduzida e de direção, foram mantidas as de linha.
Na parte elétrica retiraram a bateria, os faróis, lanternas de combate, lanternas traseiras, chicote, pedal de partida, todos os interruptores, todos os instrumentos relativos à parte elétrica e (pasmem) a buzina foi substituída por uma de acionamento manual. O medidor de temperatura também foi suprimido sobrando apenas o velocímetro e o de pressão de óleo.
O primeiro protótipo tinha apenas panelas de freio na traseira, pois na frente, tudo relativo ao sistema havia sido retirado e os braços da direção foram feitos com material mais fino. Já no segundo veículo as panelas de freio foram colocadas apenas na frente e tiveram a sua parte externa torneada para aliviar pêso também.
Óbvio dizer que os feixes de mola foram diminuídos, pois o carro já estava tão mais leve que não havia necessidade de serem tão robustos.
Ao todo foram apresentados 6 protótipos com muitas outras modificações e alternativas. Comentar todas seria impraticável no espaço disponível e poderia ficar meio monótono ficar enumerando algumas modificações de ordem meramente técnica como, por exemplo, a utilização de diferentes tipos de materiais em determinadas partes (como por exemplo a substituição do capô metálico por um de lona) e assim por diante. O importante é que mais um veículo diferente, curioso, ou ainda esquisito (depende do gosto do freguês) foi apresentado e mostra como a pesquisa histórica desse bravo veículo é tão apaixonante quanto dirigir uma máquina dessas seja no asfalto, na lama, na paz ou na guerra.

FICHA TÉCNICA PARCIAL (protótipo 02):

Peso líquido:                                            1.577,5 Lbs - 709,87 Kg
Capacidade de carga:                                500 Lbs - 225 Kg
Peso bruto:                                               2.162,5 Lbs - 973,12 Kg
Bitola:                                                      46 5/8 Pol. - 1,184 Mts
Comprimento total:                                   127,5 Pol. - 3,238 Mts
Largura total:                                            53,5 Pol. - 135,9 Mts
Altura do chão ao capo:                             39 Pol. - 0,99 Mts
Altura livre do solo:                                   8 Pol. - 0,20 Mts
Autonomia:                                               225 Milhas - 360,9 Km
Velocidade máxima:                                  64 Mph - 102,6 Km/h
Pneus:                                                      5.00 x 16 Militar não direcional

domingo, 14 de março de 2010

Willys Jeep - Jungle Pickup MLW T24


A guerra não estava nada fácil para os americanos na região do Pacífico em 1943. A lama pegajosa, o calor e a mata fechada das ilhas a serem conquistadas aos japoneses faziam com que tudo, homens e máquinas, sofressem muito. Um velho conhecido nosso, o Jeep, também tinha suas limitações e elas aos poucos foram se revelando. As unidades tentavam a todo custo melhorar o desempenho daquele que era a sua mula de carga e as modificações de campo foram aparecendo aqui e ali nas mais variadas formas. Numa dessas mudanças uma coisa parecida com uma caçamba de pickup havia sido colocada para aumentar sua capacidade de carga. A novidade funcionou razoavelmente apesar de sobrecarregar o eixo traseiro.
Essas experiências foram colocadas em relatórios e encaminhadas ao Quartel General da Força Aérea do Exército.
Em 12 de setembro de 1943 o Centro de Provas de Aberdeen começou a modificar um Jeep padrão. Um jogo de rodas de 20 polegadas foi modificado para encaixar nos eixos do Jeep. Um jogo de pneus de caminhão GMC (7.50x20) foi colocado.
Os testes no campo mostraram que o aumento da altura melhorou sensivelmente o desempenho do Jeep na lama, mas tornou o veículo menos ágil devido ao aumento de peso.
O Departamento de Ordenança encomendou para a Willys-Overland dois modelos piloto que tivessem pneus e rodas 7.50x20 aliviados e o máximo possível de partes intercambiáveis com o Jeep padrão. O novo veículo teria a seguinte denominação: “Truck, ½ ton, 4x4, Pickup, Light Jungle, MLW T24”. Esse veículo nunca seria adotado, pois o Comando das Forças Terrestres do Exército não queria um veículo fora de padrão para atrapalhar ainda mais as complicadas operações de translado de peças para manter as máquinas em funcionamento.
O T24 era basicamente um Jeep MB com 12 polegadas a mais no comprimento, com uma carroceria de pickup e com tampa traseira.
Para compensar os pneus maiores, a relação dos diferenciais foi diminuída para 5.38: 1 e a reduzida na caixa de transferência também foi rebaixada para 2.43: 1.
Feixes de molas reforçados foram colocados para sustentar o aumento da capacidade de carga que, subiu de ¼ para ½ ton. Um guincho vertical foi colocado atrás do para choque dianteiro.
Muitos problemas apareceram no protótipo N.1 (aliás, só foram construídos dois veículos desse tipo), como suportes dos jumelos que se partiam por excesso de esforço, semi-eixos que se partiam devido ao aumento de comprimento, já que os diferenciais haviam sido encompridados para suportar mais carga. Os cubos de roda não eram suficientemente fortes para aguentar o arrasto das rodas e pneus muito maiores e consequentemente se partiam. A embreagem normal de produção não tinha a capacidade de torque necessária (atenção pessoal que coloca rodas maiores em qualquer veículo, isto tudo foi feito por engenheiros de alto nível e dava problemas. CUIDADO COM AS MODIFICAÇÕES!).
Como o T24 não era prioritário, os trabalhos foram num ritmo mais lento e em Fevereiro de 1945, mais de um ano após a Willys ter completado os dois protótipos é que os testes de lama foram feitos.
O T24 saiu se bem em todos os testes. (Curiosamente ele se saía melhor na lama com os pneus sem corrente do que com elas)
Quando o projeto foi finalmente cancelado, o Centro de Provas de Aberdeen teve o trabalho de desmontar os eixos especiais que haviam sido feitos e colocou um conjunto de eixos padrão no seu lugar. Rodas normais e pneus 7.50 x 16 padrão foram colocados. Esta modificação produziu um Jeep com carroceria de pickup que, acredita-se, acabou sendo utilizado internamente pelo próprio centro de provas.
Para aqueles que estão achando que me esqueci de falar sobre o segundo protótipo aqui vai a resposta: ele foi designado para o Centro de Testes no Deserto e depois para o Laboratório de Mecânica de Tillage no Alabama para testes de lama com dinamômetro. Foi depois para o Centro de Testes de Pneus. Depois disso tudo, ele retornou para o Centro de Provas de Aberdeen, aonde chegou praticamente destruído.
De acordo com uma informação que li em um site a pouco tempo atrás, em 1948 o Campo de Provas de Aberdeen, juntou para algumas fotos e relatórios finais os protótipos que haviam sido recusados em testes e simplesmente os destruiu. Um tiro no peito do preservacionismo e da memória histórica.
Sua última foto é esta.

Hoje em dia nada resta desses dois veículos, a não serem as fotos e os dados técnicos de uma máquina que poderia ter feito outra revolução, semelhante àquela que o Jeep fez quando apareceu, mas que a política acabou estragando tudo mais uma vez.
Mais um veículo para nos deixar (nós que gostamos dessas máquinas), com água na boca. 


DADOS TÉCNICOS:

- CARGA ÚTIL:                          1.000 Lbs - 450 Kgs
- PESO BRUTO:                         3.683 Lbs - 1.657 Kgs
- COMPRIMENTO:                      142,5 Pol - 3,62 Mts
- LARGURA:                              62 Pol - 1,57 Mts
- ALTURA C/CAPOTA:                72,5 Pol - 1,84 Mts
- DIST. ENTRE EIXOS:                92 Pol - 2,33 Mts
- PNEUS:                                  7.50 X 20
- ALTURA DO CHÃO:                  12 Pol - 0,305 Mts
- VELOCIDADE MAX.:                 50 M.P.H. - 80,2 Km/h
- MOTOR:                                 4 cilindros padrão do Jeep
- TRANSMISSÃO:                        3 a frente e 1 a ré padrão do Jeep
- CAIXA DE TRANSF.:                 2.43 : 1
- DIFERENCIAIS:                        5.38: 1
- GUINCHO FRONTAL:                Vertical com capacidade de 8.000 Lbs

domingo, 21 de fevereiro de 2010

JEEPLET = Jeep + Harley-Davidson

   Embora pelo título você imagine que vai ler um artigo sobre "ponta de estoque de Jeeps", acredite, não é nada disso! Apesar de ser um nome meio esquisito para alguma coisa, foi esse o nome que o departamento de engenharia da Willys-Overland achou e registrou para um protótipo de veículo militar que eles desenvolveram em Junho de 1943.

   Nessa época, o apelido JEEP já estava muito popular tanto entre os soldados, como nos altos escalões, daí apelarem para um nome já bem conhecido e familiar a fim de lançar algo no concorrido mercado militar daquela época.
   O que se buscava, na realidade era um veículo com capacidade de levar cargas e homens e que pesasse bem menos do que o que se dispunha até então. A principal vantagem desse veículo seria a facilidade de transporte aéreo. Não podemos esquecer que ainda não haviam sido inventados os aviões que lançavam as cargas pela parte de trás. Todos os aviões da época tinham portas laterais e por isso só podiam jogar cargas pequenas e manualmente. Ou seja, aqueles que dizem que o Jeep tinha aquelas alças laterais para amarrar o paraquedas, estão dizendo muita asneira. O Jeep só conseguiu ser lançado de um avião em vôo, na década de 50.

   O tal JEEPLET tinha também uma sigla militar que era WAC 1/4 - 4X4 (Willys Air Cooled)

   Pela ficha técnica que possuo dele, algumas das suas características (que são muitas para escrever) eram as seguintes:
    - Veículo extra leve de 1/4 de tonelada equipado com tração nas quatro rodas.
    - Embreagem seca, uma caixa de transmissão e dois diferenciais convencionais com óleo hypoid. A caixa de transmissão tinha também reduzida para auxiliar a travessia de terreno difícil.
     - Pneus 15 x 5.00 de 4 lonas tipo militar com pressão de 25 Lbs.
     - Peso bruto: 1.100 Lbs (498,96 Kg) "dá pra levar no bolso".
     - Capacidade: 400 Lbs (181,40 Kg)
     - Combustível: gasolina de 70 octanas no mínimo.
     - Velocidade máxima em terceira: 48,5 Mph (77,79 Km/h)
     - Angulo de entrada de 48º.
     - Angulo de saída de 45º.
     - Autonomia a 35 Mph (56 Km/h) de mais de 150 milhas (240,6 Km).
     - Tanque de gasolina de 6 galões (22,7 Lts).
     - Suspenção traseira feita por feixes de mola semelhantes aos do Jeep.


  - Na dianteira o diferencial era preso ao chassi, e um conjunto de juntas universais duplas dava a transmissão de força para as rodas. As pontas do diferencial presas ao chassi por molas semi elípticas formavam uma suspenção independente.



  - Motor: Harley-Davidson de dois cilindros contra postos refrigerados a ar e colocado no centro do chassi.
    - 49 polegadas cúbicas.
    - Taxa de compressão de 6,5 para 1.
    - 26 Hps a 4.800 rpm.
    - Carburação horizontal e filtro de ar a óleo.
    - Transmissão Harley-Davidson modelo XOW acoplada ao motor.
   - Freio hidráulico com cilindro mestre colocado no lado esquerdo do chassi e acionamento direto.
    - Freio de estacionamento: dispositivo que acionando o pedal de freio normal este o travava na posição, ou seja, as quatro rodas ficavam travadas.
    - Partida manual. A alavanca de partida ficava ao lado direito do motorista e podia ser acionado com o dito cujo sentado mesmo.


   O mais interessante de todos os dados técnicos que aparecem na ficha dessa belezinha é que na proposta original a carroceria seria feita totalmente de madeira compensada.

     Pode parecer estranho, mas devemos lembrar que várias Station Wagon da época tinham as carrocerias feitas em madeira. E realmente isso facilitava a construção e diminuía o custo. Pelo menos naquela época.
     Em compensação, pelas fotos que aparecem nesta ficha técnica, dá para notar que existem vários indícios de ela foi feita em chapas de aço. Como se trata de um protótipo que acabou não vingando, vamos dar um desconto para isso e curtir a curiosidade.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Camburão Alemão - Jerrycan

Apesar do nome, não tem nada a ver com o veículo que a policia usa e sim com aquela "lata" que usamos para transportar combustível para nossos veículos fora-de-estrada.
Sua origem remonta a antes da Segunda Guerra Mundial, quando o Exército Alemão estava se rearmando para novamente enfrentar o mundo.
Foi em novembro de 1936 que o Exército Alemão fez um convite para que fosse apresentado um novo desenho de um reservatório de combustivel que substituisse as antigas latas de gasolina usadas até então e para equipar as novas unidades motorizadas.
A Empresa Müller de Schwelm sob a direção do chefe de engenharia, o engenheiro Vinzenz Grünvogel (1905-1977) desenvolveu uma lata de desenho revolucionario.
A única coisa que podemos afirmar com certeza absoluta é que ele surgiu de um estudo muito grande de engenharia, pois aquela "pequena" e simples "lata" encerra segredos que muitos de nós desconhecemos.
Como todas as coisas que eram feitas antigamente, ele tinha que ser construído com material de alta qualidade, pois sua forma de construção exigia chapas de aço com grande elasticidade para agüentar o repuxo do ferramental. A solda que unia as duas metades tinha que ser feita com uma uniformidade precisa, já que a possibilidade de empená-las e inutilizar o conjunto todo era bem grande.
Se olharmos os camburões de lado, notaremos que atrás da alça de transporte existe uma saliência. Ela serve para que a gasolina tenha espaço para se expandir quando a temperatura externa aumenta. Caso contrário teria um problema freqüente de vazamento pelo bocal, por mais que apertássemos a tampa.
Outra característica também no bocal é a presença de um tubo ou conduto que leva o ar da boca para a saliência traseira, fazendo com que o fluxo de combustível saia de modo constante, sem os trancos (parecidos com goles) provocados pela diferença de pressão externa e interna no momento em que tombamos o camburão para retirar o líquido de dentro. Aliás, o bocal do camburão alemão é uma obra de arte em termos de estamparia. A própria trava de fechamento faz uma alavanca que puxa a tampa contra o bocal, tornando-a hermética.
Suas três alças foram projetadas de tal modo que poderiam ser usadas do seguintes modos: um soldado pode levá-lo pela alça central com relativo conforto até onde fosse necessário. Dois soldados poderiam dividir o peso da carga simplesmente segurando cada um numa das alças externas, caso a distância a ser percorrida fosse maior. Quando estivesse vazio, um soldado poderia levar até quatro deles, segurando as alças externas com apenas uma mão em cada conjunto.
Suas laterais frisadas dão ao conjunto uma maior rigidez e diminuem os danos provocados por impactos. Quando do primeiro confronto dos alemães com os ingleses, essa estranha "lata" chamou a atenção pela sua resistência e possibilidade de reutilização, já que os britânicos utilizavam latas descartáveis semelhantes àquelas em que é vendido querosene hoje em dia nos postos de gasolina. Como diz o velho ditado popular, "nada se cria, tudo se copia", foi exatamente isso que os ingleses fizeram: copiaram a "lata" alemã nos seus mínimos detalhes, mudando apenas as inscrições, é lógico.
Os primeiros a "copiarem" o camburão, mas com algumas modificações, foram os americanos. Estes por sua vez deram uma "mexida" no projeto original e refizeram alguns itens para facilitar a construção de tal modo que não fossem necessários materiais de tão boa qualidade como no modelo alemão. Um exemplo disso foi a substituição da construção em duas metades por um sistema mais simples. O corpo principal era feito a partir de uma lâmina reta de chapa de aço, que após receber o estampo dos reforços e das marcas, era calandrada até ficar no formato semelhante ao alemão. Depois as duas pontas eram unidas com solda, formando uma espécie de tubo retangular com os cantos arredondados. Esse tubo era, por sua vez, soldado a uma tampa superior que incorporava o bocal e as alças de transporte e uma inferior que fechava o conjunto todo. A principal diferença entre o camburão americano e o alemão era o bocal. No americano era um bocal grande com tampa rosqueada e no alemão era um bocal pequeno e saliente com a tampa fechada sob pressão da trava acoplada na própria tampa. Enquanto que no sistema alemão o mesmo tipo de camburão era usado tanto para gasolina, diesel e água (neste caso, ele recebia uma cruz branca pintada de ponta a ponta e um revestimento especial por dentro), no sistema americano o camburão de água além de uma letra “W” estampada no corpo, tinha um bocal com tampa semelhante ao alemão, só que muito maior, tanto que dá para colocar a mão por dentro o que facilita a lavagem interna. O de gasolina tinha por sua vez uma letra “G” estampada, o bocal é menor e tem uma tampa rosqueada e esta possui quatro "orelhas" para facilitar o aperto.
Tanto o alemão como o americano têm um acessório muito útil que é o tubo que se coloca no bocal para facilitar a descarga do líquido sem derramar fora. É um dispositivo que se acopla ao bocal e é feito de um duto espiralado e móvel que facilita em muito a operação de reabastecimento dos veículos. Um detalhe bastante interessante é que esse duto tem na sua ponta um filtro no formato de um cone, feito de tela de latão bem fino para separar detritos que porventura estejam no combustível e que se fosse parar no tanque, poderiam provocar um entupimento. Já imaginou um entupimento em pleno combate?
Uma última curiosidade sobre os camburões é que se alguém tiver alguma dúvida a respeito da paternidade deles, é só ver com que apelido eles são chamados pelos americanos: JERRYCAN.
CAN em inglês significa "lata" e JERRY era um dos apelidos que os alemães tinham na época da Segunda Guerra. Portanto se juntarmos as duas palavras teremos: "lata do alemão".
Após a Segunda Guerra, gigantescas quantidades de camburões tanto aliados como capturados foram distribuídas para os aliados, juntamente com os veículos e equipamentos excedentes. Após algumas décadas de uso e maus tratos eles foram se acabando. Por isso é tão difícil encontrarmos um original em boas condições hoje em dia.
Vários dos países que os receberam, começaram a fabricá-los de acordo com suas especificações e necessidades. Hoje em dia temos uma variedade enorme de tipos e de materiais que vão do aço inox ao polímero, mas todos eles com uma única origem: o JERRYCAN alemão que obviamente não tinha esse nome na Alemanha. Lá ele era conhecido como Kanister.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O que é um Jeep?


É uma sigla, um conceito, uma arma de guerra, um veículo de transporte, uma idéia de liberdade, ou tudo isso junto?
Na realidade, ele é tudo isso junto, e muito mais coisas que se fossemos enumerar, levaríamos muito tempo para isso.
Quando essa pequena máquina foi idealizada, o mundo estava extremamente conturbado, e por qualquer razão do destino, o engenheiro Karl K. Probst e toda a sua equipe conseguiram misturar a quantidade certa de aço e determinação, que seduziria geração após geração, milhões de pessoas que direta ou indiretamente acabaram tendo contato com esses veículos e seus descendentes.
Até hoje, mais de 60 anos após o seu nascimento, ele é desejado como um símbolo da liberdade. Sim, da liberdade, já que com ele se pode ir a lugares e fazer coisas que seriam praticamente impossíveis com qualquer outro tipo de veículo.
No começo da sua vida, ele representou realmente a liberdade para a população da Europa. Ele razia as tropas e os suprimentos tão necessários para aquele povo oprimido pelos rigores de uma guerra, que já durava muito tempo.
Passou por mudanças de tamanho, de motor, de sistema elétrico, de praticamente tudo que se pode imaginar através dos anos, mas nunca deixou de ter aquela aura mística com que nasceu. Um Jeep chama a atenção dos olhares, onde quer que seja, e em qualquer estado de conservação que se encontre.
O meu Jeep, um MB de fevereiro de 42, quando chegou às minhas mãos, estava num estado que dava dó! O pobre coitado parecia que tinha vindo não de uma, mas de todas as guerras que já foram travadas e sempre tinha ficado do lado que perdeu. Faltavam todos os equipamentos militares e algumas outras peças tinham sido adaptadas. Em resumo, uma tremenda granada sem pino. Eu olhava e pensava no que ele já havia passado, nas muitas mãos que o haviam dirigido e em todas as situações que ele havia enfrentado. Conseguiu se safar de todas, pois afinal ele estava ali na minha frente. Achei que ao invés de transformá-lo em mais um dos muitos veículos modificados que havia na época, iria devolver àquele velho guerreiro a sua aparência original. Muitos colegas me chamaram de louco, mas isso absolutamente não me demoveu da idéia de restaurar aquela máquina maravilhosa. Bem, aos meus olhos era uma maravilha, mas essa opinião nem sempre era compartilhada pelos outros.
Uma passagem muito engraçada aconteceu algum tempo depois, quando eu estava prestes a começar a restauração. A minha namorada na época, estava fazendo uma atividade com as Bandeirantes numa praça próxima da minha casa. Fui até lá com a minha “máquina maravilhosa” e mostrei todo orgulhoso o meu Jeep Militar. O que ela viu na realidade era um Jeep velho, feio, faltando dois bancos, sem capota, com uma cor verde limão horrível, o alojamento interno dos paralamas pintados de vermelho e com as rodas pintadas de verde escuro. Ela fez uma cara de espanto e por educação achou muito bonito. Só muitos anos depois eu soube o que na realidade havia se passado, na cabeça dela, naquela hora. Algo impróprio demais para ser colocado numa matéria como esta.
O que aconteceu nos anos seguintes, foi uma sequência interminável de buscas nos depósitos de sucata, arsenais do Exército, consultas infindáveis em manuais e livros especializados (na época não existiam nem o computador pessoal e muito menos a Internet), e principalmente foi a determinação de querer colocar aquele veículo de volta nas condições em que saiu da fábrica, ou ao menos quase isso. Para muitos colegas, eu tinha virado um tremendo chato, pois queria que a minha máquina tivesse o maior número possível de peças originais, e não media esforços para isso. Quando havia um leilão de peças no Exército, um amigo meu, o Pepe, me avisava e logo que o material chegava, eu ia vasculhar as pilhas de peças à cata de algo que eu não tivesse, ou algo em melhor estado do que eu tinha. Ao longo dos anos acabei acumulando centenas de quilos de peças. Muitas dessas ainda nas caixas originais de madeira, como câmbios, caixas de reduzida, de direção e muitas outras coisas. Houve uma ocasião, em que eu comprei um caixote fechado de lanternas militares ainda na embalagem de cera. Todas elas em 6 volts. Quando cheguei em casa, dois amigos estavam me esperando. Ao me verem descarregar aquela caixa lotada de lanternas, perguntaram se eu ia abrir um depósito de sucata para fazer concorrência com o Pepe, mas não liguei para isso e deixei passar. Depois de alguns anos, esses mesmos amigos, se meteram a restaurar um Jeep cada um, e nessa hora, vieram ver se eu ainda tinha aquela sucata rara, que eles estavam precisando.

Uma coisa que me preocupava, era a hora de fazer a pintura, pois um Jeep Militar tinha que ser verde oliva. O problema estava exatamente aí. O verde oliva era proibido na época (1976), e eu não concebia a idéia de pintar o meu carro de outra cor. Mais pesquisa e a resposta veio como um raio que clareou tudo ao redor. Bem no começo da guerra, os americanos pintavam os carros numa cor chamada cáqui (Kakhi) ou Havana. Era isso! O meu carro iria ser pintado nessa cor, já que ela era original e não era proibida por aqui. Consegui, depois de um bom tempo, uma amostra da cor e mandei para uma fábrica de tintas para ser analisada. A resposta foi um "sem problema" da empresa e lá fui eu encomendar alguns galões da tão desejada tinta. Quando ela chegou, foi um delírio! Finalmente o carro iria ser pintado numa cor que não fugiria da originalidade e nem desagradaria o governo.
A parte mais difícil da pintura foi convencer o pintor de que o carro inteiro deveria ser pintado da mesma cor. Êle achava e insistia que chassi de Jeep foi e sempre deveria ser pintado de preto. Depois de muita conversa, consegui convencê-lo de que aquele carro não era um Jeep comum e que deveria ser pintado todo da mesma cor. Santa paciência e diplomacia!
Outra seqüência de paciência e diplomacia tive que ter com o funileiro, que queria tampar todos os furos que encontrava pelo caminho. Passei dias na oficina, trabalhando junto, para dizer o que tampar e o que não. Nessa operação de tapa buraco desnecessário, fizemos uma descoberta que emocionou a todos que estavam envolvidos no projeto de restauração. A lateral direita do Jeep estava repleta de perfurações de projeteis, e com toda certeza, quem estivesse por ali não teria tido chance de escapar com vida. A fonte que me forneceu o veículo me cedeu posteriormente também o diário original dele. Aquele carro havia estado na frente de batalha da Itália e numa emboscada, feita a um comboio, numa estrada de Salerno, haviam morrido todos os ocupantes (um sargento e quatro soldados), sendo que um deles não fazia parte da equipe e havia pegado uma carona, pois o seu tanque havia sofrido uma pane e estava inutilizado. Realmente era um milagre que aquele veículo estivesse ali na nossa frente!
Tirando essa parte, que mexeu com todo mundo, a restauração seguiu seu caminho quase que retilíneo.
Numa determinada manhã, durante a restauração, o dono da oficina onde tudo estava acontecendo, me falou que os diferenciais precisavam de uma reforma completa, devido ao desgaste natural. Pensei um pouco e disse-lhe que iria trazer diferenciais novos e que a reforma não era necessária. Êle me olhou e começou a rir e me disse algo como "Paulo acorda. Não estamos falando de um carro normal que você pode comprar as peças em qualquer loja. Estamos falando de um veículo da Segunda Guerra, e que está fora de produção há 30 anos no mínimo (estávamos em 1976)". Fiz de conta que aceitei a explicação dele e fui para casa. À tarde, voltei na oficina, com a Caravan do meu pai, carregando dois caixotes que pareciam caixões de defunto. Quando estacionei, o Camilo (o dono) veio ver o que eu estava trazendo. Quando abri a tampa traseira do carro, ele ficou olhando com uma cara de espanto para aquelas duas caixas enormes e com alças de corda e pelo jeito estava com medo de perguntar o que o que elas continham. Olhei bem para ele e disse: "Em vez de ficar com essa cara, dá para me ajudar a descarregar esses dois diferenciais?". Quando abri os caixotes, ele não acreditava no que estava vendo: Dois diferenciais "0" km envoltos em cera, na cor original, e precisando apenas serem colocados nos devidos lugares. Quando o choque inicial passou, ele me perguntou se eu havia roubado aquilo de algum museu. Ele não fazia idéia da quantidade de peças que eu tinha em estoque.
Os diferenciais "0" km foram colocados e várias peças do compartimento do motor também, e até os aros das rodas, que são desmontáveis, foram tirados das caixas originais. Enfim, quase que todo ele foi recuperado com peças originais e novas. A busca pelas peças, havia se tornado um hobby para mim e eu conseguia cada vez mais peças originais para a minha coleção de sucatas raras.
As histórias que aconteceram durante e após a restauração desse Jeep, foram tantas, que dariam um livro. O que absolutamente não pretendo fazer. Mas contaria para qualquer pessoa que tivesse paciência e tempo para escutar.
Muita água rolou por baixo da ponte até a hora em que finalmente consegui deixar o meu Jeep Militar mais ou menos como havia imaginado. Na realidade, uma restauração dificilmente termina, pois a gente sempre encontra alguma coisa a mais que poderia ou deveria ser colocada no veículo. O mais importante de tudo é fazer uma pesquisa bem detalhada sobre que versão se quer fazer do Jeep antes de começar, assim evitamos que as nossas máquinas pareçam árvores de natal, lotadas de acessórios muitas vezes incompatíveis para serem usados em conjunto.
Posso afirmar com toda a certeza do mundo, que foi um esforço que valeu a pena, pois hoje ele é meu orgulho e foi meu companheiro fiel em muitos caminhos e situações em que nós dois dependíamos somente um do outro.